MIGRAÇÕES NA CONSTRUÇÃO DA CRÍTICA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
Escritos de Silviano Santiago e de Luiz Costa Lima servem de fontes primárias para este trabalho sobre migrações críticas. Tanto os europeus modificam os seus conceitos quanto estes ensaístas também. Costa Lima o faz no "mundo tropical", apreciando objetos dos dois lados. Silviano Santiago empreende a "tradução" do "transnacional" no local com "tropicalidade". Ambos rastreiam deslocamentos de categorias críticas e operam realinhamentos culturais com bastante argúcia e criatividade. A linha de pensamento de ambos, e meu enfoque, caminham no horizonte de reformulação do conceito de cultura como fonte de identidade, na medida em que esta, encarada nesta perspectiva, adquire aspectos transcendentes e desvinculados do cotidiano. Daí, a aceitação do híbrido e do transnacional tradutório.
Neste ensaio, a historicidade emerge da relação dos resíduos discursivos de colonialidade e nas formas simbólicas do neocolonial inscritas na "narrativa crítica" contemporânea, de uma forma contígua, distensa ou com incisões, rupturas, tensões. Abandono as noções centradas no material “histórico” convencional, aquele referencialmente, e de imediato, identificado com o passado retórico ou com o presente equivocado.
Acho que a retórica da globalização com o seu triunfalismo e arrogância paternalista produz uma estrutura de sentimentos transnacional em contigüidade com as narrativas globais. Com isso, ela inferioriza os povos “latino-americanos”, considerando-os primitivos e intelectualmente inferiores. A partir desta constatação, é preciso questionar a inserção do país no mundo “global” e repensar seu lugar na geografia local.
Escolhi os ensaios “A ficção oblíqua e The Tempest”, em Pensando nos trópicos, de Luiz Costa Lima[1], e “Por que e para que viaja o europeu?”, em Nas malhas da letra, de Silviano Santiago[2], para objeto de minhas reflexões. Hoje sabemos que não existem mais centros hegemônicos de elaboração de conceitos, embora a Europa e os Estados Unidos continuem a erguer um front intelectual no sentido de manterem a hegemonia que exerceram durante muito tempo. Homi Bhabha, na "Introdução" do seu livro O local da culturadiz: "Nossa existência hoje é marcada por uma tenebrosa sensação de sobrevivência, de viver nas fronteiras do "presente", para as quais não parece haver nome próprio além do atual e controvertido deslizamento do prefixo "pós": pós-modernismo, pós-colinialismo, pós-feminismo"[3] .
Com Montaigne, temos a migração inversa - "o antropófago que visita a Europa. As descobertas marítimas levam a intolerância européia para a América, o índio tornou-se uma cópia do europeu4 . Silviano faz deslocamentos culturais e de sentido. Claro que esta "cópia" não é passiva, como diz Edward Said. Os colonizados sempre resistiram. A leitura em contraponto deve considerar o imperialismo (agora, o transnacional) e a resistência a ele, o que pode ser feito estendendo nossas leituras dos textos de forma a incluir o que antes era forçosamente excluído: o "imperialismo" Vozes do passado reprimido ecoam no presente, numa metonímia temporal. Ignorar ou minimizar a experiência sobreposta de latino-americanos e europeus, a interdependência de terrenos culturais onde colonizador e colonizado combateram um ao outro por meio de projeções, assim como de geografias, narrativas e histórias rivais, é perder de vista o que há de essencial no mundo nos últimos cem anos5.
Silviano diz que o europeu viaja porque não gosta de trabalhar , mas ressalta que tem-se de dizer que no fundo, ele também trabalha, já que navio algum chega sozinho ao seu destino. "Mais correto seria talvez dizer que existe uma hierarquia no trabalho: o nobre e o aviltante. Seria nobre o que fosse justificado pela ética da aventura, e esta - por sua vez-, de maneira bem pouco ética, tudo justificava e legitimava para que a ação da aventura se realizasse plena. Até mesmo a escravidão negra"6. Utilizando este gancho, ele informa que o romance europeu do séc. XVIII, sobretudo o de Joseph Conrad, instituiu "como verdadeira e justa uma ética para o homem moderno", justificando a viagem do europeu. A leitura do romance que contém energias criadoras e qualidades estéticas, deve também incluir o seu componente de expansão imperialista, que não é uma simples questão de ética. Sua forma incorporava a idéia de "tomar as terras daqueles que têm pele mais escura e nariz mais achatado", e ao mesmo tempo fechava uma cortina sobre o processo , ao dizer que a arte e a cultura não têm nada a ver com esse "algo". O europeu viaja porque vê na América um campo de possibilidades, campo este que esteve sempre associado ao romance realista do séc. XIX. "Robinson Crusoé é praticamente impensável sem a missão colonizadora que lhe permite criar um novo mundo próprio nos pontos remotos e agrestes da África, Pacífico e Atlântico"7 .
Said ressalta com muita pertinência que "os grandes praticantes da crítica simplesmente ignoram o imperialismo". Ao ler um texto, devemos abri-lo tanto para o que está contido nele quanto para o que foi excluído pelo autor. Cada obra cultural é a visão de um momento, e devemos justapor essa visão às várias revisões que depois ela gerou. Em "Por que e para que viaja o europeu?", Silviano diz que para tornar fascinante e sedutora a ética da aventura, todos aqueles romancistas e outros mais (refere-se a Daniel Defoe, Chateaubriand, Joseph Conrad) colocaram o peso da ação sob a responsabilidade de um único indivíduo. Dessa forma, tornam-se abstratas as questões de caráter coletivo e ideológico (a colonização e a exploração, por exemplo), e o espírito do leitor se rende ante a evidência formidável desses heróis do nosso tempo e de outras terras que não as européias8 . Está atento para o fato de que os romancistas da era do imperialismo escrevem para fundamentar as práticas colonizadoras de seus impérios e estabelecer a hegemonia do modus faciendi da política colonial. Conrad, por exemplo, em Heart of darkness, está preocupado com a rendenção do mundo pela eficiência, em que os ingleses erigem em imagem de salvação, capaz de envolver a todos colonizadores e colonizados.
A construção da crítica que emerge do processamento mimético das formas simbólicas e normas estéticas locais tem que ser redimensionada como construção da cultura inscrita nos sentidos do pós-colonial, da contra-modernidade, da passagem do epistemológico (concentrar-se na episteme dos objetos, na função e na intenção) para o enunciativo(reinscrição da cultura nas relações sociais e nas enunciações discursivas, rastrear deslocamentos culturais e políticos). Esta teoria tem que levar em conta a temporalidade disjuntiva, a contingência, o indeterminismo, a reconstrução do conceito de cultura, a temporalidade do presente, e a eliminação das relações binárias, conforme teorizam Homi Bhabha e Edward Said.
Silviano Santiago ao renomear a cultura e a ficção, o faz numa perspectiva enunciativa, ou seja, levando em conta a “zona de contacto” ( o “entre-lugar”), condensando metonimicamente o "local" e "global", "o dentro" e o "fora". Para tal, aciona, já nos anos 70 e 80, o conceito crítico de "transnacional tradutório", proposto por Homi Bhabha no final dos anos 90, bastante produtivo para a crítica literária, principalmente dos países que se encontram na esfera do que se chama hoje pós-colonilaismo. Assim, o renomeamento da ficção e da cultura (novos constructos) se dão com foco no enunciativo, e no contemporâneo. Ele confere importância ao mundo neocolonizado sem esquecer o imperialismo (globalização).
"Exercer o gosto de pensar como habitante dos trópicos": este é um trecho da "nota preliminar" em que explica o eixo em torno do qual se interligam os ensaios reunidos em Pensando nos trópicos que tratam do discurso ficcional. A indagação sobre os relatos de viagem geraram o capítulo "A ficção oblíqua e The Tempest" . O interessante da crítica de Costa Lima são os desdobramentos do "ficcional" , nestas "migrações na construção crítica ". Ela se dá dos dois lados do Atlântico.
O ensaísta trata das modificações do conceito de ficcionalidade devido aos relatos de viagem. Os contactos com a América mudaram algumas concepções de verdade sustentadas pelos europeus, assim como o próprio estatuto da ficção. Também veio à tona a aporia aristotélica de uma constância humana que implicava, para a prática interpretativa, a incapacidade de acatar e manter a diferença9 . Basicamente, investiga a importância que a descoberta da América teve na produção da ficção teatral na peça de Shakespeare, e o próprio estatuto da ficção, que renomeia, criando uma categoria nova.
Costa Lima analisa a reconceituação do imaginário operando um contraponto entre "imaginação" e "razão" no bojo da descoberta da América e da estranheza do europeu diante das práticas do canibalismo. "... o canibal era explicado por uma carência quanto aos preceitos básicos da lei natural, assim também o uso metafórico era interpretado como um tipo de "devoração" da razão sadia, absorvida pela voracidade da formação imaginativa. A luz da razão não prospera entre os selvagens; canibalismo e pletora imagética são sinais homólogos de sua inferioridade"10 A migração de conceitos europeus para o " novo mundo" operou as invenções híbridas como imagem da América - uma mulher de "seios caídos", que remetem ao "excesso de natureza", à figuração medieval do disforme e do monstruoso, em oposição à imagem da mulher benévola, à escultórica romano-renascentista - o modelo da cultura. Na leitura dos europeus, ser diferente era ser inferior.
A viagem do europeu operou também uma inconografia híbrida na representação do monstruoso. O ficcional, o mundo possível, só tinha lugar no discurso europeu sob a cláusula da tolerância. Para que se identifique o estatuto do ficcional, "será preciso acentuar que as narrações de viagem aguçam a necessidade pragmática de controlar os relatos que não se enquadram na qualificação de verdadeiros ou falsos11 . Em seguida, o crítico trata do controle do ficcional no âmbito do poder e da censura. Nesta perspectiva, pensa o "controle", fazendo um contraponto com a "invenção controlada". Esta não seria a grande contribuição de Costa Lima no âmbito das migraçôes críticas? Parece que o crítico intervém na migração, renomeando o conceito e produzindo outro, e isto lhe deve ser creditado.
Em sua contribuição ao renomeamento do ficcional, destaca que no Quijote, a narrativa se processa de maneira a transgredir os limites que a imitatioimpunhaao ficcional, operando o desmonte das convenções, e assumindo as convenções do romance de cavalaria, só passível de ser literalmente criado por um louco. Assim, o ensaísta mostra o modo oblíquo do surgimento da ficção moderna - a exploração de situações ambíguas, na peça The Tempest, de Shakespeare. O mundo apresentado nesta peça oferece a um leitor da época todas as incertezas que poderiam provocar algum relato de viagem. Shakespeare as tematiza no seu texto e as projeta sobre o mundo cênico. No que toca à migração, os textos literário e cênico, servem de suporte para redefinir ficção, pois não se confundem na reinterpretação de Costa Lima, nem com os relatos de viagem, nem com uma fantasia sobre os relatos: a ambigüidade afeta o relacionamento mesmo da fantasia com o real12 . A ficção de Shakespeare é oblíqua pela impossibilidade de transpor a interdição da diferença.
A oposição entre Próspero e Caliban impede que se reduza The Tempest à dimensão justificativa da colonização. Próspero, o usurpado, não deixa também de ser usurpador. Seu domínio da ilha e seu uso de Caliban são portanto condições necessárias para que almeje a reconquista de seus direitos. O oblíquo se enraíza na exploração da ambigüidade, que assegura à peça de Shakespeare um interesse apenas documental ou nacional. A análise de CL mostra ao leitor não filiado a uma ótica européia, a necessidade de ultrapassar a leitura alegórica a que The Tempestfoi submetida. Costa Lima desvincula a leitura da peça da ideologia colonial, dando-lhe um estatuto da recepção contemporânea dos relatos de viagem, isto é, a perspectivação da incerteza.
Neste ensaio, pós-colonial aponta para sentidos como a persistência da colonização no presente, sob o disfarce de globalização, e portanto para a continuidade da presença de rastros de mitos imperiais que continuam gerando significado, desejos e atitudes, agora numa temporalidade disjuntiva.
Na contemporaneidade, as narrativas se fazem em torno do “trasnacional tradutório”, utilizando aspectos culturais da mídia globalizada. Estes relatos organizam suas intrigas na contigüidade dos signos e das formas simbólicas locais e “transnacionais”, com os sentidos indeterminados. Um bom exemplo é Benjamin13 , de Chico Buarque de Holanda. Este autor utiliza como principal estratégia para a construção do romance, o deslizamento da “visualidade” sobre os objetos da mímesis diegética. Assim, as ações, os corpos, os movimentos se expõem a um “olho” ou “câmara” que narra tudo. Diríamos que o descritivo aqui toma o lugar do narrativo como no nouveau-roman francês, adicionado da incorporação dos pastiches icônicos do internacional, inscrevendo-se num sistema de cultura mundializada. Esta câmara dominadora é cultural, pós-colonial e pós-moderna. Ela é a forma simbólica da historicidade contemporânea do romance, uma alternativa "escrita" ao virtual que permeia o contemporâneo. Daí, o romancista utilizar todos os recursos do hiperreal : as técnicas do cinema pós-moderno, do vídeo-clip, fotos de jornais e imagens da internet. Transformados em voyeurs do imediato e da paisagem cotidiana, olhamos as ruas, as avenidas, os shoppings, os hipermercados, as lojas de moda, mediados pela descrição retórica da palavra, uma espécie de metonímia da midia, signo contíguo à câmara. Miramos então este mundo lúdico, cuja releitura do consumo nos causa um certo cansaço pela repetição do já visto e experimentado.
Referências Bibliográficas:
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte, Edit. UFMG, 1998.
CONRAD, Joseph. Heart of darkness, in Youth and two other stories.Garden City, Page,1925.
HOLANDA, Chico Buarque de. Benjamin. São Paulo, Companhia das Letras,1995.
LIMA, Luiz Costa. Pensando nos trópicos: (dispersa demanda II). Rio de Janeiro, Rocco, 1991.
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo.Trad. Denise Bottman. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra. São Paulo, Companhia das Letras,1989.
SHAKESPEARE, W. The Tempest, in The Annotated Shakespeare, A.L. Rowse (ed). Greenwich House, New York, 1984.
[1] Lima, Luiz Costa. “ A ficção oblíqua e The Tempest”. in Pensando nos Trópicos. Rio de Janeiro. Rocco. 1991. p. 99-118
[2] SANTIAGO, Silviano. "Por que e para que viaja o europeu?",. In: Nas malhas da letra. São Paulo, Companhia das Letras,1989. p.189-203, 206-212, 215-232, respectivamente.
[3] BHABHA, Homi K. Introdução.In: O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves.p.19
4SANTIAGO, S. 1989, p. 193.
5 SAID,Edward. 1995, p. 22.
6 SANTIAGO, S. 1989, p. 194.
7 SAID, Edward. 1995, p. 101.
8 SANTIAGO, S. 1989, p.194
9 LIMA,Luiz C. 1991, p. 100.
10 LIMA, L.uiz C. 1991, p. 101
11 LIMA,Luiz C. 1991, p.102.
12 LIMA, Luiz C. 1991, p.. 109.
13 HOLANDA, C. B. Benjamin, 1995..